domingo, 21 de junho de 2015

A incompetência da Educação



Via de regra tenho falado neste blog a respeito de transtornos e dificuldades de aprendizagem e  de educação, mas hoje gostaria de abordar um ponto de vista diferente e, provavelmente, polêmico.
Dia desses estava numa discussão numa rede social a respeito de TDAH e outros transtornos que acabam influenciando diretamente na aprendizagem e na educação, e um colega de profissão fez uma colocação dizendo que não são as crianças que estão doentes e sim, a escola. Isso e outras informações que recebi ao longo da semana me fizeram pensar imensamente sobre o assunto e desejei escrever sobre isso.
Atualmente é muito comum vermos a classificação de crianças como portadoras desse ou daquele transtorno por pessoas com pouco ou nenhum conhecimento sobre o assunto. Tenho visto acontecer com certa frequência o diagnóstico feito por professores, diretores, inspetores, até mesmo auxiliares de limpeza a respeito do comportamento e do desenvolvimento das crianças. Não desmerecendo nenhuma profissão, mas cada um dentro de seu conhecimento, diagnósticos mal feitos e sem fundamento têm sido passados para mães e pais de forma desastrada, deixando-os sem chão. Some-se a isso profissionais de saúde e de educação despreparados ou desatualizados, que acabam corroborando esse diagnóstico errôneo e, pronto, está feito o estrago completo.
Recentemente Viviane Senna, psicóloga e presidente da Fundação Airton Senna, disse em entrevista à BBC:

Se pudéssemos transportar um cirurgião do século 19 para um hospital de hoje, ele não teria ideia do que fazer. O mesmo vale para um operador da bolsa ou até para um piloto de avião do século passado. Não saberiam que botão apertar. Mas se o indivíduo transportado fosse um professor, encontraria na sala de aula deste século a mesma lousa, os mesmos alunos enfileirados. Saberia exatamente o que fazer. A escola parece impermeável às décadas de revolução científica e tecnológica que provocaram grandes mudanças em nosso dia a dia. Ficou parada no tempo, preparando os alunos para um mundo que não existe mais.(1)

Sim,  a escola está doente, mas eu vou ainda mais além: a educação como um todo está doente.
Profissionais cansados, desatualizados, desmotivados e sem interesse real em aprender, reciclar ou mudar a forma de trabalhar nas escolas, tudo isso unido a um governo que não tem interesse de fato em fazer o país ser a Pátria Educadora, que não oferece escolas e material decente, além de uma população pouco instruída, pouco culta, pouco crítica, fazem com que a escola não passe nem perto de seu papel de ensinar, transformando-a - com raríssimas exceções - num verdadeiro depósito de crianças que ainda devem seguir regras que já não fazem mais sentido,  contentar-se com um conteúdo monótono e desinteressante e que, se por acaso se "rebelam" contra esse sistema, são taxadas de doentes, desajustadas e prontamente tornam-se indesejáveis no ambiente escolar.
As crianças mudaram, a nova geração de crianças exige novos meios, novas ideias e novas metodologias, mas parece que a escola e seus atores insistem em não perceber isso. Ao contrário, apoiam-se em rotulações e diagnósticos, muitas vezes descabidos e sem sentido, para explicar ou disfarçar sua própria incompetência.
Precisamos ser críticos e avaliar cuidadosamente a forma de ensino brasileira, que não funciona e vem funcionando cada vez menos. De nada adianta proporcionar sistemas de cotas nos cursos superiores se a base do ensino não funciona. De que adianta enfiar a força em universidades jovens que mal sabem escrever, ler ou interpretar um texto dignamente? Que profissionais estaremos formando? Esse é o futuro do país, as gerações futuras de médicos, enfermeiros, cientistas, professores, e tantos outros profissionais que desejamos?
A coisa está tão complicada que tenho visto professores, responsáveis pela alfabetização de crianças, que mal sabem escrever o português básico e, se advertidos, sentem-se pessoal e profundamente ofendidos, fechando-se em seu mundo ao invés de buscar olhar criticamente para seu trabalho, sua formação e transformar aquilo que está errado, defasado ou ineficaz em sua vida profissional. Tenho acompanhado verdadeiras aberrações sendo cometidas na alfabetização infantil sob o pretexto da tal alfabetização na idade certa. Crianças tem sido massacradas, pressionadas a, muitas vezes, queimar etapas de seu desenvolvimento para aprender a ler com 3, 4, 5 anos. Não que uma criança não seja capaz disso. Algumas crianças são, mas não todas. Porém, aquelas que tem o desenvolvimento que deveria ser considerado normal, passam a ser olhadas com olhar distorcido de quem acredita que se aos 5 anos não aprenderam a ler uma palavra inteira ou ainda fazem uma letra espelhada, se aos 5 anos são crianças que querem brincar, são ativas e gostam de correr e pular, então precisam ser medicadas, dopadas, pois são crianças consideradas fora dos padrões normais esperados.
Os pais também tem sua parcela de culpa. Já falei a respeito disso em outra postagem, mas vale repetir: muitas vezes, para certos pais e mães, a aprendizagem de seus filhos vale como um troféu que massageia seu ego. Eles adoram exibir seus filhos pequenos dizendo que já sabem ler ou escrever, mas se impacientam quando a criança age apenas como criança - brincando, correndo, pulando.
Uma criança de 4, 5 anos pode ser introduzida à leitura e mesmo sozinha ela começa a dar os primeiros passos rumo à escrita. Quando uma criança desenha, rabisca um papel, está se preparando para o manuseio do lápis, do uso dos cadernos, está treinando a preensão, a coordenação motora, está amadurecendo para a etapa seguinte. Queimar essa etapa, exigindo que a criança aprenda, muitas vezes na marra, a fazer as letras, a compreender as sílabas e escrever palavras, prejudica ao invés de auxiliar.
Os pais e as escolas que desejam introduzir as letras e a leitura no universo da criança, devem faze-lo de forma lúdica, por meio da leitura de livros com histórias e desenhos que estejam de acordo com a idade dela, fazendo disso um momento prazeroso e não uma obrigação. Deixar livros a mostra, para que a criança possa ter contato com eles quando assim desejar, também é permitido e é uma ótima estratégia. Mas forçar a criança a ler em tão tenra idade, quando ela não está pronta ainda para isso, fará com que ela fique angustiada, ansiosa e ao invés de tomar gosto pela alfabetização, poderá até mesmo ter aversão a ela.
Disfarçar a incompetência dando um fardo tão pesado às crianças, não fará a escola ser mais eficiente. Do jeito que a coisa anda, daqui há alguns anos teremos uma geração de crianças dopadas sendo adestradas dentro do ambiente escolar, deixando de lado sua criatividade, seu raciocínio e todas as maravilhas que uma criança é capaz de expressar.



(1) Modelo de escola atual parou no século 19, diz Viviane Senna. Por Ruth Costas. Disponível em http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/06/150525_viviane_senna_ru
                                  
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segunda-feira, 27 de abril de 2015

TDAH: educar ou medicar?



Mais uma vez volto ao assunto para falar a respeito de uma situação bastante comum que divide a opinião de médicos, psicólogos e demais estudiosos: TDAH infantil é assunto médico ou fruto de uma má educação?
Bem, em primeiro lugar precisamos pensar no TDAH como um transtorno que envolve não apenas a hiperatividade como também a falta de atenção e a impulsividade. Para ser diagnosticada com TDAH uma pessoa precisa apresentar um conjunto de características que devem ocorrer a mais de seis meses e em diferentes lugares ou situações: na escola, em casa, na casa dos avós, no parque, etc.
Atualmente classificar uma criança como hiperativa tornou-se bastante comum. Muitos pais, professores, profissionais da saúde ou qualquer outra pessoa, ao verem uma criança muito agitada, irriquieta, que não consegue se concentrar por muito tempo, tendem a classifica-la como hiperativa. Contudo existem condições que podem fazer com que a criança se torne bastante agitada sem que ela seja, de fato hiperativa, e isso, muitas vezes, é negligenciado nos diagnósticos feitos às pressas. É muito comum, por exemplo, que crianças tenham muitas atividades durante o dia como aulas de karatê ou balé, natação, videogames, jogos em tablets, aulas de inglês, aulas de reforço, tudo sem em espaço para o descanso. Sendo assim, ao invés de "descarregar" a energia essas crianças estão ficando "superativadas" ou seja, essas crianças ficam tão agitadas com o acúmulo de atividades e responsabilidades que não conseguem relaxar. A partir daí podem apresentar comportamentos que se confundem com hiperatividade patológica, quando precisem ficar em repouso ou na hora de dormir. Dessa maneira, crianças que não são portadoras do transtorno TDAH acabam sendo mal diagnosticadas e medicadas sem necessidade.
Uma outra situação muito comum que pode ser confundida com o TDAH é, de fato, a má educação. Pais que não tem tempo para seus filhos acabam deixando de colocar limites por não saberem, ou por não conseguirem, ou porque deixam seus filhos na creche ou com babás e quando estão com eles acreditam que precisam compensar o tempo perdido fazendo tudo que a criança deseja, ou simplesmente porque colocar limites dá muito trabalho, demanda tempo e algum desgaste e, por isso, preferem deixar a criança fazer tudo que deseja.
Impor limites é necessário e crianças que nunca ouvem "não" terão grande dificuldade em ter parâmetros sobre o certo e o errado, sobre até onde podem avançar e quando devem parar e isso pode ser desastroso na vida adulta. Os pais não podem simplesmente permitir que o filho destrua a mesa de doces do aniversário do amiguinho pelo fato de que, se o impedirem de fazer isso, ele terá um ataque de fúria e fará um escândalo no meio do salão. É preciso deixar claro os papéis e mostrar que não se consegue nada com birra ou grito. Porém, se a criança tem na família exemplos assim - uma mãe emocionalmente instável que consegue as coisas no grito ou um pai agressivo que consegue as coisas com violência, ou pais muito "moles", por exemplo - essa criança terá como parâmetro esse tipo de comportamento e o expressará para conseguir satisfazer seus desejos.
Portanto, desse ponto de vista, uma criança nessas condições ser diagnosticada como portandora de TDAH poderá ser bastante danoso, pois ela será tratada de um problema que não possui e será negligenciada naquilo que realmente a afeta negativamente.
Uma outra questão importante no diagnóstico do TDAH é a questão dos relacionamentos familiares. Crianças que vivem em famílias desestruturadas, agressivas, desinteressadas, onde existem brigas constantes, crianças que apanham ou sofrem violência psicológica tendem a ser crianças mais retraídas, reservadas, caladas e até mesmo entristecidas. Podem, por outro lado, ser crianças bastante agressivas e agitadas. Essas crianças geralmente possuem baixo rendimento escolar e muita dificuldade de atenção e concentração. Isso ocorre porque sua energia está sendo canalizada para o stress constante. Imagine-se constantemente preocupado com alguma situação... não sobra muito espaço para aprender coisas novas ou para alegrias e contentamento. Se para um adulto isso é prejudicial, imagine para uma criança que mal tem condições de lidar com as próprias emoções. Sendo assim, diagnosticar apressadamente crianças nessas condições como portadoras de TDAH e trata-las com medicamentos é um erro grave que, novamente, poderá ter consequências desastrosas para a vida adulta.
Por outro lado, existe uma parcela de crianças (estimada em 5% da população mundial) que possuem o transtorno TDAH propriamente dito.
Estudos recentes de imagem com ressonância magnética de alta frequência sugerem que o portador de TDAH possui falhas em alguns setores cerebrais responsáveis pelo controle da impulsividade, pela atenção, falhas em centros dopaminérgicos (que controlam a agitação) e, por isso, é considerado um transtorno neurobiológico. Estudos sugerem também que o TDAH pode ser uma doença hereditária ou genética, pois estudos feitos mostraram que quando uma criança possui TDAH, seus pais ou outros irmãos também possuem. Estudos feitos inclusive com gêmeos demonstraram esse mesmo padrão.
Portanto, como podemos notar, diagnosticar uma criança como portadora de TDAH ou dizer que ela é hiperativa e precisa de tratamento medicamentoso demanda muita responsabilidade e o diagnóstico precisa ser feito por equipe multiprofissional exatamente para que se estudem as variáveis que possam estar causando o comportamento desajustado na criança e para que ela seja tratada corretamente, evitando maiores prejuízos futuros, tanto por ser tratada de algo que não possui, quanto por deixar de ser tratada em suas reais necessidades.
Mães e pais precisam estar atentos ao comportamento de seus filhos, evitando patologizar comportamentos que são comuns às crianças como brincar, correr, pular, entre outros.




REFERÊNCIAS

BENCZIK, Edyleine B. P. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade: atualização diagnóstica e terapêutica. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2014.
DRUCKERMAN, Pamela. Crianças francesas não fazem manha. Rio de Janeiro, Objetiva, 2013.
FUENTES, Daniel. Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre, Artmed, 2014.
MALLOY-DINIZ et all. Avaliação Neuropsicológica. Porto Alegre, Artmed, 2010.
SIQUEIRA, Claudia M., GURGEL-GIANNETTI, Juliana. Mau desempenho escolar: uma visão atual. Rev. Assoc. Me. Bras. São Paulo , v. 57, n. 1, p. 78-87, Fev. 2011 . Disponível em . acesso em  on 24 nov. 2014. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302011000100021.
SOARES, Alessandra Elisa. Neuropsicologia para o novo milênio - vol.1. São Paulo, All Print, 2012.
TEIXEIRA, Gustavo. Desatentos e Hiperativos. Rio de Janeiro, Bestseller, 2013.
TIBA, Içami, Quem ama, educa! São Paulo, Editora Gente, 2002.



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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Morder, empurrar, bater arranhar: quando devo me preocupar

Mordedores e Empurradores
É uma queixa muito comum a ocorrência de mordidas e empurrões nas escolas de educação infantil. Muitas crianças mordem e muitas outras são vítimas das mordidas. Algumas crianças chegam a se machucar com certa gravidade devido às mordidas e aos empurrões, pois ao serem empurradas facilmente perdem o equilíbrio e podem sofrer quedas consideráveis. Também ao serem mordidas, podem sofrer ferimentos mais ou menos graves. Isso ocorre porque o mordedor não tem controle sobre a força de sua mordida, não sabe quando parar, apenas morde, gosta e continua mordendo. E isso se torna um problema na medida em que a criança mordida sofre, e os pais de ambos os lados, sentem-se mal e constrangidos com a situação que envolve também os professores e a escola.
Mas por que, afinal, as crianças mordem, empurram, batem, arranham?
Pense na seguinte situação: você pega seu bebê pelos braços, faz cócegas nele e dá pequenas mordidinhas em suas pernas e em seus bracinhos gorduchinhos. Ele ri, gosta e você continua. Dá beijinhos, faz barulhos engraçados encostando sua boca na barriga dele e assoprando e ele dá gargalhadas. Você brinca de morder suas mãozinhas, as vezes você verbaliza brincando “eu vou morder sua bochecha!”. Você dá tapinhas em seu bumbum, faz cócegas, dá beliscões de levinho, empurra suas perninhas, faz com que seu corpo se movimente de maneira desajeitada. E ele gosta!
Nesse tipo de brincadeira, a criança está aprendendo que o uso da boca e do corpo pode ser uma coisa prazerosa. Ela gosta quando os pais mordiscam, beijam, fazem barulhinhos engraçados com os lábios, cutucam, fazem cócegas e então começa a querer testar isso também. É um comportamento que também é aprendido.
Na faixa etária entre 2 ou 3 anos as crianças começam a explorar o mundo pela boca: gosto, textura, sons, sucção, lambidas, tudo, absolutamente tudo é levado até a boca para ser reconhecido. É o que Freud chamou de Fase Oral. Dessa forma, tudo aquilo que se aproxima da criança será lambido, sugado, mastigado, etc.
É muito comum você ver seu filho pequeno colocando as coisas na boca, lambendo, chupando, tanto que é nessa mesma fase em que os pais tem cuidado redobrado com as crianças impedindo que elas engulam objetos pequenos ou corram algum perigo colocando substâncias perigosas na boca. Sabe aquela classificação etária que existe nos brinquedos, dizendo que é aconselhável para crianças até 3 anos ou desaconselhável para crianças menores de 3 anos? Ela existe justamente porque é nessa fase que a criança explora o mundo pela boca, e é exatamente dessa maneira que ela também vai expressar suas emoções, seus sentimentos, suas frustrações e sua agressividade, bem como seu prazer. Ou seja, a criança até 3 anos de idade não consegue se expressar verbalmente. Ela ainda não desenvolveu completamente a linguagem, não tem vocabulário e compreensão suficientes para falar a respeito do que sente ou do que quer. Sendo assim, a única maneira que a criança encontra de se expressar é oralmente, ou seja, pela boca. Tanto é que se você prestar atenção numa sala de aula dos pequenos, eles estão constantemente se beijando, se lambendo, e a mordida também faz parte desse momento do desenvolvimento infantil.
Porém, embora seja uma coisa normal para a idade, não significa que os pais ou os professores não devam repreende-la. Pelo contrário, a criança precisa aprender que a mordida não é uma forma aceitável de comunicar suas frustrações, sua raiva, seus desejos e seu prazer. Ela deve compreender que fazer isso machuca outra criança, que não é bom, que não é aceitável.
Da mesma forma, os empurrões fazem parte do cotidiano da criança. Como já disse no começo, a criança aprende com os pais que o toque pode ser prazeroso e nesse estágio a criança não está preocupada com o prazer alheio e sim apenas com o seu prazer, mesmo que isso cause dor ao coleguinha. Isso ocorre porque nessa fase, para a criança não existe nada além dela. Tudo deve girar ao redor dela e para ela. E sendo assim, nada de dividir. O que mais ouvimos é a frase “é meu!”. Como ela não consegue se expressar verbalmente, se a criança se sentir incomodada de alguma maneira, impedida de fazer aquilo que deseja (pegar um brinquedo, por exemplo), ela vai usar dos métodos que dispõe, o que significa empurrar, morder, bater.
Muitas vezes a criança mordedora escolhe um amiguinho em especial para morder e morde aquela criança repetidamente. Isso pode ter vários motivos: pode ser por ciúmes, pode ser raiva, ou até mesmo pode ser que aquela criança tenha um gosto melhor do que as outras, ela pode ser mais fofinha e com isso proporcionar mais prazer ao mordedor. Não se espante com isso, porque como já disse, a lógica da criança nessa idade é diferente da dos adultos. Sendo assim, redobre a atenção em sala de aula.
Algumas mudanças no cotidiano da criança também podem leva-la a morder. Gravidez da mãe, separação dos pais, gravidez da professora, perda de ente querido, situações de stress, enfim, embora não saibam expressar o que sentem, as crianças sentem e precisam encontrar uma maneira de expressar seus sentimentos.
Mas como fazer para demonstrar à criança que ela não deve fazer isso?

O que fazer?
Tente conversar com a criança olhando olho no olho, com voz firme mas sem ser agressivo, numa linguagem que ela possa compreender. Diga a ela que aquilo não pode acontecer. Pergunte por que ela bateu, provavelmente ela vai expressar de alguma maneira o porquê de ter agido daquela maneira. Se ela mordeu porque queria o brinquedo do colega, diga a ela que da próxima vez peça o brinquedo. Provavelmente você precisará fazer isso inúmeras vezes, mas nunca desista.
Uma outra coisa importante também é não deixar a criança ociosa por muito tempo. Caso esteja num momento onde as atividades tenham se encerrado, por exemplo, aguardando para ir ao lanche ou para ir embora, fique de olho na criança que morde e esteja alerta, porque provavelmente quando estiver ociosa ela vai procurar algo para fazer e esse algo quase que certamente, será morder um amiguinho.
Nunca bata na boca da criança quando ela morder, nunca bata na mão da criança quando ela empurrar. Não fale com agressividade, não grite porque além da agressão desnecessária, você só estará reforçando o comportamento indesejável, já que a criança entenderá que mesmo errando, ela terá toda a sua atenção e isso poderá fazer com que ela repita o comportamento indesejável sempre que quiser você por perto.
Você poderá coloca-la de castigo, um minuto para cada ano da idade dela, se achar necessário, se a mordida for muito grave ou se todas as outras tentativas já tiverem sido frustradas. Mas não se esqueça que o castigo deve ser compatível com a idade da criança. Se for deixa-la no cantinho do pensamento, por exemplo, nunca exceda o tempo de 3 minutos. Um minuto para cada ano da criança. E explique a ela por que ela está de castigo.
Se ela morder um amiguinho por causa de um brinquedo, não deixe que ela fique com esse brinquedo após a mordida. Ela não pode ser recompensada pela atitude errada, caso contrário, ela entenderá que basta morder para conseguir o que deseja e então esse comportamento só vai piorar.
Não grite com a criança. Gritar não educa e só torna a criança mais agressiva. Converse com firmeza, explique o erro mas não se esqueça nunca de que ali está uma criança que está agindo por impulso e não por maldade.
Não isole a criança. Ao contrário disso, tente integra-la o máximo possível nas brincadeiras, deixando-a o menos ociosa possível, para que ela perceba que pode ter outros tipos de comportamentos prazerosos e aceitáveis.

Resumindo
As crianças na faixa etária entre 2 e 3 anos passam, basicamente, por 3 situações: fase oral, fase egoísta ou narcísica e limitação na linguagem. Dessa forma, a maneira que encontram para expressar desejos, frustrações, raiva, inveja, ciúmes e também para reconhecerem o mundo ao seu redor é morder, empurrar, arranhar, ou bater. Geralmente essas manifestações são reflexo de sentimentos negativos como raiva, frustração, ciúmes, mas a mordida pode ser também uma manifestação de prazer da criança, pois morder uma outra criança fofinha e cheirosa pode ser realmente gostoso.
Algumas crianças são eleitas para serem mordidas por sua atitude passiva frente à situação ou devido a alguma recompensa que a criança mordedora tenha conseguido após o ocorrido, como por exemplo:

1.A criança mordeu o amiguinho para pegar o brinquedo. O amiguinho mordido saiu da sala e a criança mordedora ficou com o brinquedo. A criança entende que toda vez que morder aquele amiguinho, vai conseguir o que desejar.

2. A criança mordedora queria a atenção da professora que, naquele momento estava voltada para outra criança. Ao ser mordida, essa criança sai da sala e a professora volta sua atenção ao mordedor que, mesmo levando uma bronca, conseguiu a professora de volta para si. Pode ser que todas as vezes que a criança que foi mordida se aproximar da professora, o mordedor vai morde-la novamente para conseguir a atenção da professora.

3. Uma criança que morde, bate, empurra com frequência e que deixa de ser contrariada pela professora para evitar esse tipo de atitude, acaba tendo todas as suas vontades satisfeitas. Com isso aprendeu que agredir é a melhor maneira de conquistar o que deseja e vai repetir essa atitude constantemente.

Embora os exemplos dados aqui tenham sido referentes à sala de aula, são válidos para qualquer situação onde existam grupos de crianças na faixa etária entre 2 e 3 anos reunidas.

Quando há algo realmente errado?
Devemos começar a nos preocupar realmente quando a criança tem mais de 4 anos de idade e continua tendo as mesmas atitudes agressivas (morder, empurrar, arranhar, etc.). Após os 4 anos de idade a criança passa a ter vocabulário suficiente para se expressar e seus interesses também mudam. Ela passa a socializar com mais facilidade, pois começa a reconhecer o outro além dela. Portanto, se uma criança com mais de 4 anos continua tendo atitudes muito agressivas, é hora de procurar ajuda para entender o que está errado.

Evite desgastes desnecessários
Já vi muitos pais terem brigas feias por conta das situações de brigas entre as crianças. Isso não é uma boa maneira de resolver a situação. Compreender o desenvolvimento da criança, suas limitações e suas reações frente às mais diversas situações é a melhor maneira de começar a resolver as coisas.
Se o seu filho tem sido mordido, procure a direção da escola, converse com a coordenação, com a professora, tentem encontrar uma solução em conjunto. Se, por outro lado, seu filho tem mordido outras crianças, é preciso que você converse com ele constantemente a respeito do acontecido, mostrando que essa atitude não é boa de uma maneira que ele compreenda. Não se esqueça que o vocabulário da criança nessa idade é limitado, portanto fale com ele como se você também fosse uma criança, diga “faz dodói no amiguinho”, “o amiguinho chora”, “a mamãe fica triste quando você faz isso”. Converse também com o pessoal da escola para que todos ajam em conjunto para tentar modificar a atitude da criança.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Neuropsicologia e Educação: a importância da interação entre os saberes

Via de regra os educadores compreendem os processos da aprendizagem, porém muito raramente conhecem os caminhos cerebrais por onde passam esses processos.
Se eu perguntar a um educador o que significa aprender, poderei obter variadas repostas. Porém, do ponto de vista neurobiológico, a aprendizagem resume-se a aquisição de novos comportamentos e novas habilidades e isso se dá por meio de processamentos neurais.
Dessa forma, entender de que maneira isso se processa no sistema nervoso torna-se importantíssimo para melhorar o processo de ensino-aprendizagem e também para otimizar seu tempo em sala de aula.
Além disso, é preciso compreender que aprender ou não, depende de uma série de fatores biológicos, fisiológicos, psicológicos, etc e que se alguma coisa nessa estrutura não funciona, o processo de aprendizagem será prejudicado.
É preciso ainda prestar atenção ao fato de que não aprender é diferente de ter um bom ou mau desempenho escolar. Uma criança pode apresentar um mau desempenho escolar mas fora da escola conseguir assimilar todo tipo de informação. Por exemplo: a criança é capaz de decorar nomes de personagens de desenhos, interagir com tablets ou computadores, nomear as cores, mas é incapaz de assimilar o conteúdo passado pelo professor em sala de aula.
Por que?
Porque para que o indivíduo seja capaz de aprender, entre outros fatores, o ambiente em que ele está inserido deve ser favorável a essa aprendizagem. Podemos pensar num bom exemplo: se um aluno sofre bullying na escola, dificilmente seu desmpenho escolar será bom. E se esse aluno for transferido para outra escola, muito provavelmente terá uma melhora significativa nesse desempenho. Portanto, não são apenas os fatores internos (biológicos, físicos) que interferem na aprendizagem, mas também os fatores externos (ambiente escolar ou familiar).
Leonor Bezerra Guerra diz que “o sistema nervoso precisa estar direcionado à experiência. Se o professor não consegue chamar a atenção do aluno para que as redes neurais sejam ativadas, ele não vai memorizar e armazenar informações”. (Ultimo Segundo-Educação, 2014).
Para que ocorra a aprendizagem, é preciso que haja significação do conteúdo, para o aluno. Se o sistema nervoso não conseguir se interessar por aquilo que está sendo passado pelo professor, não assimilará o conteúdo e a aprendizagem não acontecerá. Nesse caso, o que acontecerá será somente a armazenagem de conteúdos na memória de curto prazo (ou memória de trabalho) mas não a fixação desses.
Isso é apenas uma pequena amostra do que as neurociências e a Neuropsicologia podem fazer pelo professor e, nesse contexto a Neuropsicologia é uma ciência que poderá auxiliar o professor a compreender melhor os processos neurobiológicos e psicológicos envolvidos na aprendizagem e, com isso, planejar suas aulas de forma a serem mais efetivas para o processo educacional, passando por novas formas de passar o conteúdo até chegar a novos processos de avaliação.

A Neuropsicologia poderá também auxiliar a tomada de decisões relacionadas a ajuste de horários das turmas, quantidade e qualidade das tarefas a serem realizadas dentro de cada disciplina, além, claro, de auxiliar o professor a detectar em seus alunos, possíveis transtornos, síndromes ou doenças que possam estar interferindo em seu desenvolvimento escolar.

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

TDAH em adultos: principais características, diagnóstico e tratamento


Como já vimos em artigos anteriores, o TDAH é um transtorno neurobiológico localizado na região frontal do cérebro que acomete cerca de 5% das pessoas pelo mundo, principalmente crianças em idade escolar. Isso significa, segundo estudos, que o TDAH não depende de fatores educacionais ou psicológicos para existir, muito embora esses outros fatores também possam desencadear alguns sintomas parecidos com os do TDAH. Porém não se considerava, até um tempo atrás, a possibilidade de adultos também serem portadores do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.
Antigamente acreditava-se que com o crescimento e amadurecimento da criança, os sintomas do TDAH desapareceriam. Era como se a criança "criasse juízo", segundo o senso comum. Entretanto estudos recentes mostraram que 67% das crianças diagnosticadas como portadoras de TDAH tornam-se adultos TDAH.
Mas então, por que isso acontece e por que se pensou que o TDAH desapareceria naturamente após a adolescência?
O que sabemos é que durante a adolescência os sintomas de hiperatividade, agitação e impulsividade tendem a ir diminuindo, chegando muitas vezes a desaparecer na vida adulta, dando lugar aos sintomas de desatenção, falta de concentração, o que normalmente chamamos de "falta de foco". Alguns adultos ainda mantém os sintomas de impulsividade, mas o mais comum é que esses desapareçam na vida adulta.
Cada um de nós certamente poderá se lembrar de pelo menos um amigo, parente, vizinho, conhecido "sem foco". Geralmente é aquela pessoa que vive se atrasando, que não consegue pagar as contas em dia mesmo tendo dinheiro, que tem dificuldades para arrumar emprego ou em se manter nele, que não fica muito tempo num relacionamento amoroso, que não consegue levar um trabalho ou projeto até o fim e logo começa outro, que tem sua mesa de trabalho bagunçada, cujo dia poderia ter 72 horas e ainda assim não conseguiria terminar todas as suas atividades... enfim, são muitas as características do adulto portador de TDAH e se fizermos uma análise de sua infância, provavelmente descobriremos que ele foi uma criança portadora de TDAH não diagnosticada ou não tratada corretamente.

Diagnóstico
O diagnóstico do TDAH adulto se faz da mesma forma que o da criança: por meio de análise de comportamento do indivíduo em seu dia a dia, avaliando sua atenção, sua concentração e também estudando seu comportamento durante a infância, visando colher dados que possam corroborar o diagnóstico adulto. É preciso que os sintomas ocorram em vários ambientes diferentes e que sejam recorrentes a mais de seis meses.
Segundo a ABDA - Associação Brasileira de Déficit de Atenção, alguns sintomas são encontrados mais frequentemente e com maior intensidade em adultos com TDAH:

1.Instabilidade profissional

2.Rendimento abaixo da capacidade intelectual

3.Falta de foco e atenção

4.Dificuldade de seguir rotinas

5.Tédio

6.Maior incidência de divórcios e separações conjugais

7.Maior incidência de acidentes de transito

8.Dificuldade de planejamento e execução das tarefas propostas

9.Maior índice de desemprego

10.Procrastinação

11.Ansiedade diante das tarefas não estimulantes

12.Maior índice de desistência em Universidades / evasão escolar

13.Dificuldades nos relacionamentos; relacionamentos instáveis

14.Frequente alteração de humor

15.Frequentes esquecimentos, perdas e descuidos para datas e reuniões importantes

16.Dificuldades para expressar suas ideias, colocar em prática o que está pensando/em sua cabeça

17.Dificuldade para escutar e esperar a sua vez de falar

18.Frequente busca por novas coisas que o estimulem; intolerância a situações monótonas e repetitivas

19.Repetição frequente de erros, frequente falta de atenção com coisas simples

Tratamento
O tratamento do TDAH pode ser feito de várias maneiras e somente os profissionais envolvidos no caso poderão decidir quais os melhores caminhos a serem seguidos. Muitas pessoas necessitam tomar alguma medicação para estimular a memória, a concentração e dminuir os sintomas da agitação e impulsividade, porém é desejável que além da medicação, o adulto portador de TDAH também seja acompanhado por um psicólogo ou neuropsicólogo para realizar exercícios e treinamentos que estimulem a atenção e a concentração, além de técnicas e meios de se organizar melhor em seu dia a dia, pois quanto mais o cérebro é estimulado em determinada área, mais será capaz de desenvolver as habilidades referentes a ela. Portanto, quanto mais o portador de TDAH treinar a concentração, a atenção, mais ele será capaz de se organizar e ter uma vida normal.

Importante
Existem muitos questionários e testes que você encontra na internet que podem lhe dar pistas a respeito de sinais de TDAH porém o diagnóstico sério, verdadeiro e correto só poderá ser feito por especialistas como psicólogos, neuropsicólogos, neurologistas, psiquiatras, por meio de avaliação criteriosa de cada caso. Portanto, a simples existência de algumas das características do TDAH não faz de você um portador que necessite de tratamento, pois várias outras situações podem causar sintomas semelhantes. Caso você identifique em você ou em alguém, alguns dos sintomas ditos neste artigo que estejam prejudicando a convivência, o trabalho ou a vida da pessoade um modo geral, na dúvida, procure um profissional.


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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Quando a alfabetização precoce se torna dificuldade escolar

Eu tenho 43 anos e ainda me lembro da minha pré-escola. Na época o ciclo da educação infantil era dividido em maternal, jardim e pré-primário. O pré-primário tinha esse nome justamente porque ali se iniciava a pré-alfabetização, aos 6 anos de idade. Era uma preparação para o então chamado ensino primário. Antes disso, as crianças brincavam muito e faziam atividades de treino motor, preparando para a escrita e para a leitura, que lentamente se iniciava no pré. Não havia lição de casa ou quando havia era pouca coisa. Lembro-me que adorava a lição das ondinhas (treino para a letra C) mas detestava a lição da molinha (treino para a letra E). Aquilo tudo era bastante difícil para uma criança de 4 anos, mas era uma dificuldade que poderia ser superada dentro da maturidade e do desenvolvimento normal esperados para essa idade.
Sabemos que hoje em dia as coisas mudaram bastante. É muito comum hoje, crianças começarem a ser alfabetizadas a partir dos 3 anos de idade e as escolas alardearem essa façanha como mérito para qualificar o nível do sistema de ensino.
Por outro lado, a grande maioria dos pais também entra nessa louca competição para ver se seus filhos começam a ler e escrever antes dos demais, como se isso fosse alguma demonstração de inteligência e até mesmo de superioridade ou ainda, como se isso fosse a certeza de um futuro promissor para a criança.
A psicóloga Rosely Sayão aborda muito bem essa temática no artigo Alfabetização Precoce, publicado na Folha de São Paulo. Segundo ela:
Acelerar a aprendizagem na esperança de uma melhor formação para o futuro é ilusão e equívoco de nossa parte. Cabe aos pais e às escolas a defesa intransigente do direito que a criança tem de ter infância, já que tudo o mais conspira para o desaparecimento dessa fase. Nossas escolhas mostram se realizamos isso ou não.

Cada vez mais cedo, pais saem em busca de auxílio profissional para tentar entender o que está errado com seus filhos que não conseguem aprender. Porém, não estamos falando de crianças de 6, 7, 8 anos de idade e sim, de crianças com 3, 4 ou 5 anos que já estão sendo rotuladas como portadoras de transtornos de aprendizagem, quando na verdade elas nem sequer estão maduras para podermos falar em dificuldades de aprender ou não!
Criou-se uma grande confusão com relação aos estádios de desenvolvimento (postulados por Piaget) e a capacidade de aprendizagem da criança, como se cada estádio fosse um acontecimento único, isolado e como se todas as crianças, dentro da mesma faixa etária, devessem responder igualmente ao processo de aprendizagem.
Isso chega a ser uma aberração, porque as crianças são seres humanos e como tal, são completamente diferentes umas das outras. Uma criança não pula de um estádio para outro como num passe de mágica. Isso vai ocorrendo gradualmente, ao longo do desenvolvimento, sendo que umas crianças avançam mais do que outras num processo completamente normal.
Mas, com essa mais nova moda de alfabetizar precocemente, todas são colocadas num mesmo patamar dentro de uma média esperada e sendo assim, espera-se que uma criança entre 4 e 5 anos já seja capaz de escrever, ler e compreender seu nome, reconhecer vogais, números de 0 a 10 e até muitas vezes, dependendo do caso, realizar operações matemáticas simples.
Porém, é bom que se lembre que uma criança nessa idade está começando a ter maturidade mental e neuronal para poder formar noções de número, quantidade, abstração, juntar e compreender o todo, etc. Portanto, querer forçar a natureza dessas crianças está causando mais mal do que bem.
A escola moderna está gerando e alimentando pais ansiosos e crianças ansiosas, angustiadas e estressadas, porque num momento crucial de suas vidas onde o brincar deveria ser a principal preocupação, elas estão sendo cobradas a terem responsabilidades e uma compreensão de mundo que elas simplesmente não conseguem ter!
Alguém poderá argumentar que hoje em dia as crianças são mais inteligentes, mais ativas e mais maduras do que há 40 anos atrás. Sim, eu vou concordar. Porém, algumas coisas não mudaram e novamente volto a dizer que não podemos generalizar. Se formos a uma sala de aula de crianças entre 4 e 5 anos, vamos notar muitas diferenças maturacionais entre elas. Algumas já estarão lendo, outras mal saberão desenhar as letras, pois ainda precisarão de mais trabalho de coordenação motora e precisarão de mais maturidade neurológica para poder chegar a essa etapa.
Quando os psicólogos educacionais defendem, de forma geral, a importância do brincar, não estão querendo dizer que todo o resto deve ser abandonado. O que estamos querendo dizer é que a criança aprende brincando antes de qualquer outra coisa. Em cada fase de desenvolvimento, a criança pode tomar contato com letras, números, frases, mas isso tudo deve ser feito de forma lúdica, leve, fazendo com que a criança vá compreendendo aos poucos do que se trata tudo aquilo. Os pais e as professoras podem e devem ler para as crianças, ler junto com elas livros com figuras, desenhos, cativar o gosto pelas letras. Mas não devem forçar uma criança de 4, 5 anos a produzir textos, quando isso é algo antinatural. Ela contará muitas histórias mas não deverá ser forçada a escrever suas histórias, porque isso poderá matar sua criatividade, ao se deparar com uma situação que poderá não ser capaz de enfrentar.
Afinal, de que adianta sentar a criança numa mesa, colocar um caderno quadriculado em sua frente cheio de números, letras, enunciados enormes para cada lição, solicitando que ela preencha lacunas, escreva ou copie frases, quando ela sequer é capaz de compreender o significado do que está fazendo?
Pular etapas, acelerar a alfabetização da criança não está criando uma geração de crianças mais inteligentes ou com um futuro melhor. Pelo contrário, está gerando crianças que aos 4 anos de idade não querem ir à escola por saberem que não conseguirão acompanhar as lições, crianças ansiosas por terem que atingir metas que não são capazes e pais excessivamente preocupados com o desempenho escolar de seus filhos, como se aos 4 anos de idade o fato de espelhar as letras ou não conseguir escrever o próprio nome, seja prenúncio de um adulto fracassado.
Crianças devem sim, ser estimuladas, mas até que ponto o sistema de ensino atual mascara pressão excessiva sob a forma de estimulação?
Fica a reflexão.

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Doença de Parkinson



Algumas doenças neurológicas podem apresentar sintomas semelhantes e por esse motivo a avaliação criteriosa e cuidadosa deve ser ponto de partida para o diagnóstico mais preciso.
Antigamente conhecida como Mal de Parkinson, atualmente denominada Doença de Parkinson, foi descrita pela primeira vez em 1817, pelo médico inglês James Parkinson.
É uma doença que afeta um local do cérebro conhecido por substância nigra fazendo com que essa região se deteriore e perca sua função normal. Os neurônios dopaminérgicos dessa região começam a morrer e consequentemente a dopamina fica diminuída, causando assim a doença e seus sintomas.
O doente de Parkinson, no início da doença, passa a observar sinais mais ou menos clássicos, como tremor de repouso (as mãos tremem mesmo quando pousadas em algum lugar), perda da força nas mãos, sobretudo na mão dominante, dificuldade em escrever (a caligrafia começa a se tornar pequena e tremida). Se não houver tratamento, a doença progredirá para graus mais graves, comprometendo o caminhar, a postura, etc.
O paciente poderá apresentar prejuízos cognitivos tais como: déficits no controle inibitório, na flexibilidade cognitiva, na memória de trabalho, no planejamento e na atenção. Poderão ocorrer também déficits na linguagem, sobretudo na fluência verbal.
Com relação à demência, nem todas as pessoas com Doença de Parkinson vão apresenta-la, porém estima-se que 1/3 dos portadores de Parkinson acabem desenvolvendo uma condição demencial. A demência deverá ocorrer em casos mais avançados da doença ou em pessoas que adquirem Parkinson em idade mais avançada. De qualquer forma, como já descrevemos os prejuízos cognitivos, os sintomas na demência de Parkinson serão relacionados a esses déficits (processos de pensamento mais lentos, letargia, dificuldade ou perda da capacidade de tomada de decisão, de planejamento, de raciocínio e para lidar com situações novas). Poderá haver sintomas menos frequentes como perda de controle emocional, angustia, depressão ou explosões de raiva e delírios. Porém, esses últimos sintomas poderão ser desencadeados ou acentuados pela própria medicação. Por esse motivo, é necessário um acompanhamento cuidadoso do doente, para que se possa verificar até que ponto será necessária a troca por outra medicação à qual o paciente seja melhor adaptado.
Existe ainda uma condição chamada de Parkinsonismo Secundário onde o doente apresenta sintomas da Doença de Parkinson, porém tal condição não necessariamente é causada pela doença, embora essa ainda seja sua principal causa.
Embora 70% dos casos de parkinsonismo secundário, sejam causados pela própria Doença de Parkinson, outros 30% podem ter causas tóxicas (como causadas pela ingestão de certos medicamentos), metabólicas ou outras condições neurológicas. Nos casos de parkinsonismo secundário, após exames laboratoriais e investigação minuciosa, suspendendo-se a possível causa da síndrome (intoxicação medicamentosa, intoxicação por produtos químicos, causas metabólicas, etc), os sintomas melhoram podendo até mesmo desaparecer. Isso não ocorrerá na Doença de Parkinson propriamente dita, onde a remissão dos sintomas ocorrerá apenas com a utilização de drogas específicas, com tratamentos de indução elétrica transcraniana ou ainda com cirurgia específica.
Segundo o Hospital Sírio-Libanês, “o conjunto de sinais e sintomas neurológicos chamado de síndrome parkinsoniana ou parkinsonismo é composto por tremores, lentidão e pobreza dos movimentos voluntários (acinesia ou bradicinesia), rigidez (enrijecimento dos músculos, principalmente no nível das articulações), instabilidade postural (dificuldades relacionadas ao equilíbrio, com quedas frequentes)”.
E muito importante é o diagnóstico preciso da doença, com a realização de exames clínicos, escuta do paciente, da família, exames de imagem para que se possam excluir outras doenças que porventura se assemelhem aos sintomas do Parkinson (como a demência por corpúsculos de Levy, por exemplo) ou mesmo o parkinsonismo secundário, proporcionando assim, ao paciente, a melhor terapêutica para seu caso específico.



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REFERÊNCIAS

ALZHEIMER´S AUSTRALIA. Drugs used to relieve behavioural & psychological symptoms of dementia. Disponível em Acesso em 27/11/2014

____________________ What is dementia? Disponível em Acesso em 27/11/2014.

ASSOCIAÇÃO PARAENSE DOS PORTADORES DE PARKINSON. O que é doença de Parkinson? Disponível em Acesso em 26/11/2014.

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE FAMILIARES E AMIGOS DOS DOENTES DE ALZHEIMER. Doença de Parkinson e Demência. Disponível em Acesso em 27/11/2014.

HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Doença de Parkinson – Parkinsonismo. Disponível em Acesso em 26/11/2014.

PAULA, Jonas Jardim et all. Exame neurpsicológico de pacientes com comprometimento cognitivo leve e demência. in FUENTES, Daniel et all. Neuropsicologia: teoria e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.




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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Sete mitos sobre a educação e transtornos de aprendizagem na criança

Gostaria de falar um pouco sobre alguns mitos muito comuns a respeito da educação e dos transtornos de aprendizagem na criança. São coisas que ouvimos todos os dias, são repetidas constantemente, porém fazem parte apenas do senso comum, não necessariamente refletindo uma realidade. Vamos a eles.

MITO 1: A culpa é sempre dos pais.
Embora os pais, e principalmente a mãe tenham um papel importantíssimo na formação afetivo-emocional e educacional da criança, nem todos os problemas que a criança vai apresentar são culpa dos pais.
Aliás, falar em culpa é imputar aos pais uma responsabilidade que eles não possuem, pois mesmo que geneticamente alguma doença ou algum transtorno tenha sido transmitido, ainda assim não é adequado falar em culpabilidade, pois tratamos de algo que foge à capacidade de controle de qualquer pessoa. Dessa forma, dizer que a criança não aprende porque a culpa é dos pais que não forçam, não educam, não estimulam, ou seja por que motivo for, não é verdade. Nem todos os pais são negligentes com seus filhos e muitas vezes, mesmo cercando a criança de cuidados e atenção, ela não aprende e não se desenvolve, pois os motivos vão além da educação ou da falta dela.

MITO 2: Crianças com transtornos de aprendizagem nunca conseguirão ter um bom desempenho escolar.
Mesmo crianças que tenham algum tipo de transtorno de desenvolvimento que influencie em sua aprendizagem podem vir a ter um bom desempenho escolar, desde que o problema seja detectado precocemente e essa criança seja acompanhada por um profissional que cuidará de seu desenvolvimento. Por isso é muito importante que o professor esteja atento aos seus alunos e a suas mudanças de comportamento ou dificuldades de aprendizagem, bem como os pais devem procurar ajuda de um profissional de saúde quando desconfiarem de que alguma coisa está errada com seu filho.

MITO 3: Crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista) são limitadas e por isso não precisam ser estimuladas.
Crianças com TEA precisam e devem ser estimuladas sim, como qualquer outra criança, pois além de terem o direito de estarem em uma escola regular e participar do processo de aprendizagem normalmente, têm condições de se desenvolverem mesmo que dentro de algumas limitações. Ser portador de TEA não é sinônimo de falta de inteligências. Existem diversos graus de autismo e crianças com essa condição devidamente tratadas, podem desenvolver muitas habilidades e, inclusive, ter inteligência acima da média. Portanto, além do atendimento multiprofissional adequado, crianças portadoras de TEA precisam de apoio adequado dentro da sala de aula e da escola como um todo.

MITO 4: TDAH é uma doença inventada.
Como vimos, o TDAH não é uma doença inventada, nem mesmo é uma doença e sim, um transtorno. Existem indícios de que crianças com TDAH tenham sido identificadas já na Grécia antiga e mais tarde, no século XIX foram tratadas como crianças portadoras de distúrbios de comportamento. 

Existem ainda algumas controvérsias sobre o grande abuso de medicamentos para tratar o TDAH e muitos estudos vem sendo feitos na área da neurologia e da neuropsicologia, porém o que já se sabe é que o cérebro do portador de TDAH apresenta mudanças reais, se comparado ao cérebro de não portadores. Portanto, o TDAH não é uma doença inventada  e quanto mais esse transtorno for divulgado e estudado, menos crianças e adultos sofrerão por não encontrarem tratamento adequado para suas dificuldades.

MITO 5: Criança que não quer estudar deve ser castigada, pois se trata apenas de preguiça.
A criança que tem resistência a ir à escola ou a estudar pode estar enfrentando problemas reais com os quais não consegue lidar sozinha e ao invés de castigos, gritos, agressão, necessita de ajuda profissional.
Pressão por parte de professores e pais não vai fazer com que essa criança se dedique mais aos estudos ou tenha vontade real de ir à escola. Pelo contrário, esse tipo de comportamento dos adultos fará com que a criança resista cada vez mais às atividades escolares e tenha cada vez menos capacidade de se desenvolver satisfatoriamente.
Cabe aos adultos – professores e pais – perceberem quando se trata de comportamentos inerentes à faixa etária da criança ou comportamentos que fogem ao padrão esperado. Embora essa seja uma linha tênue, é saber fazer essa distinção que vai fazer a diferença entre o fracasso e o sucesso da criança.

MITO 6: Medicar a criança a fará ficar dependente.
Na verdade atualmente os medicamentos estão bastante modificados e raramente causam dependência, sobretudo os que são voltados à pediatria.
Nem sempre a criança precisa ser medicada mas muitas vezes a medicação regula o comportamento, diminui a falta de concentração, a irritabilidade, a agitação, entre outros sintomas. Porém, qualquer que seja o caso somente um médico neuropediatra ou psiquiatra infantil poderá decidir qual é o melhor tratamento para cada síndrome, transtorno ou doença da criança.

MITO 7: Somente a medicação basta.
Esse é um mito bastante divulgado principalmente no meio médico, mas o fato é que embora a medicação seja um meio de controle, em alguns casos não traz a cura porque existem transtornos que ainda não são curáveis.
O que ocorre é que a maioria das crianças que apresentam transtornos do desenvolvimento que prejudicam seu desempenho escolar acabam desenvolvendo o que se chama de comorbidades, ou seja, doenças paralelas. Por exemplo: uma criança que sofre bullying poderá tornar-se apática, depressiva ou irritadiça e agressiva. Quando isso ocorre é preciso investigar para saber o que de fato está causando esses sintomas na criança e resolve-los por meio de intervenção psicológica, neuropsicológica ou psicopedagógica. Na grande maioria dos casos a medicação sozinha não cura, apenas regula. Terapia traz à tona os conflitos e aí sim, as questões que de fato incomodam a criança poderão ser tratadas.

Em todos os casos é aconselhável que a criança seja cuidada por uma equipe multidisciplinar, formada por médico, psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo, conforme o caso e o grau de comprometimento para que possa se desenvolver, ainda que apresentando alguma condição que possa dificultar seu desenvolvimento dito normal.


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terça-feira, 18 de novembro de 2014

TDAH - O que é?

Sabe aquela criança que não para, que pula, corre, grita, derruba as coisas, bate nos amigos, no irmão, faz mil coisas ao mesmo tempo e tem dificuldades em dormir? Essa criança pode ser portadora de TDAH.
TDAH é a sigla usada para Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Sabe-se que 3% a 5% das crianças em idade de alfabetização pelo mundo são portadoras de TDAH. Adultos também podem apresentar esse transtorno.
Suas características são basicamente a desatenção, a hiperatividade e a impulsividade. Porém o portador do transtorno pode apresentar apenas uma das características, sem as outras duas presentes. Isso é o que se chama predominância.
É muito comum que crianças portadoras de TDAH apresentem outros tipos de problemas como: depressão, irritabilidade, baixa autoestima, agressividade, medos, insegurança, comportamento desafiador, etc.
Por outro lado, crianças com outros transtornos escolares podem ser erroneamente diagnosticadas como portadoras de TDAH. Por isso, o diagnóstico preciso é tão importante.

A criança com TDAH, na escola, é aquele aluno que tem dificuldade de ficar sentado, que constantemente provoca os colegas, que derruba seu material o tempo todo, que parece estar sempre no mundo da lua e via de regra não consegue acompanhar o conteúdo programático, mesmo não apresentando nenhum déficit de inteligência.
Na Europa a porcentagem de casos diagnosticados de TDAH difere dos números apontados na América, por exemplo. Só para se ter uma idéia, nos Estados Unidos 9% das crianças foram diagnosticadas como portadoras de TDAH e estão sendo tratadas com medicamentos, enquanto na França, apenas 0,5% das crianças possuem esse diagnóstico. Segundo estudos, isso ocorre porque os europeus entendem que os sintomas do TDAH estão muito mais ligados a questões psicossociais, que podem ser modificadas por meio de mudanças de atitude dos pais e educadores, psicoterapia e aconselhamento familiar. Já para os médicos americanos - e também para os médicos brasileiros, o TDAH está ligado a questões biológicas e por isso deve ser tratado com medicação.
Um dos grandes questionamentos está na excessiva classificação de transtornos e doenças, sobretudo com o recém lançado DSM - V (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais). Segundo o DSM-V, até mesmo o luto após a morte de um ente querido pode ser considerado um transtorno grave. Dessa forma, a excessiva classificação pode ser fruto de uma crescente tendência à medicalização, sem contudo expressar corretamente as causas existentes por trás dos ditos transtornos e os tratamentos mais eficazes. Por esse motivo a França criou seu próprio manual, denominado CFTMEA (Classification Française des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent), criado em 1983.

Porém, estudos recentes feitos por fMRI (Ressonância Magnética funcional por Imagem) mostram que o cérebro de portadores de TDAH possui um mal funcionamento nas áreas responsáveis pela concentração, pela memória e pelo controle inibitório.
Seja como for, seja qual a abordagem a ser seguida, a criança com sintomas de TDAH precisa de acompanhamento especializado para que se minimizem ou cessem os sintomas e também se evitem ou tratem as comorbidades comuns nesse tipo de situação.
Em Neuropsicologia é possível se realizar uma reabilitação voltada para a desatenção, as dificuldades de concentração, para a impulsividade e para a agitação sem o uso de medicamentos.
A escolha da melhor terapia deve ser preferencialmente feita por uma equipe multidisciplinar e a família deve ser orientada sobre os pontos favoráveis e desfavoráveis de todas as alternativas de tratamento e sua contribuição na decisão do melhor caminho, é muito importante.

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REFERÊNCIAS

BENCZIK, Edyleine. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2014. 
DRUKERMAN, Pamela. Crianças francesas não fazem manha. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.
FUENTES, Daniel et al. Neuropsicologia: teoria e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
SOARES, Alessandra E. Neuropsicologia para o novo milênio. São Paulo: All Print Editora, 2012. 
TEIXEIRA, Gustavo. Desatentos e hiperativos. Rio de Janeiro:  Best Seller, 2013.
___________________ Manual dos transtornos escolares. Rio de Janeiro: Saraiva, 2013.
VICARI, Maria Isabel. Melhorando a atenção e controlando a agitação – livro para crianças sobre o TDAH. São Paulo: Thot Cognição e Linguagem, 2006. 

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domingo, 16 de novembro de 2014

Agressividade infantil

Como vimos anteriormente, uma criança precisa ter uma saúde física em boas condições para poder se desenvolver.
Da mesma forma, não conseguirá crescer e desenvolver uma mente sadia se não for alimentada de afeto, segurança, amor e carinho de forma satisfatória. A mãe precisa estar disponível para a criança sobretudo no primeiro ano de vida porque é nessa fase que a criança vai consolidar seus afetos que se transformarão em memórias afetivas as quais a criança vai carregar para o resto da vida. 
Crianças agressivas estão expressando algo, enviando alguma mensagem ao mundo.
Quando uma criança é criada em um ambiente violento, agressivo, sem carinho e sem um contato positivo com um cuidador (que nesse caso pode ser a mãe ou qualquer outra pessoa que cuide da criança), certamente ela será um adulto com sérias dificuldades emocionais. Posso citar um exemplo recente. Um aluno adolescentefoi se despedir de seu professor dando-lhe uma cutucada de leve no braço sem nenhuma conotação de violência. O professor teve uma reação desmedida frente a esse gesto, vociferando ao aluno que se isso se repetisse tomaria sérias providências. O aluno, visivelmente constrangido, pediu desculpas, disse que não tinha a intenção de agredi-lo ou machuca-lo e que aquele cutucão era apenas uma forma de cumprimento entre ele e seus próprios colegas. Alguns dias depois o professor viu por bem se manifestar diante da classe, que presenciou a cena, e explicou que quando criança seu pai costumava chegar em casa alcoolizado e antes de uma sessão de surra, cutucava seu braço da mesma forma que o aluno teria feito anteriormente. Dessa forma, de alguma maneira, esse professor, um adulto de mais de 40 anos, resgatou em sua memória afetiva um afeto negativo ligado a uma situação dolorosa de sua infância.
Mas antes de se tornar um adulto, a criança afetivamente negligenciada vai apresentar uma série de comportamentos considerados indesejados. Como exemplo podemos pensar no aumento dos históricos de violência escolar, onde são cada vez mais frequentes casos de alunos agredindo professores em sala de aula sendo que o que causa mais espanto nesses casos é a idade das crianças agressoras ser cada vez menor.
Claro que não podemos excluir patologias que podem acometer as crianças e comprometer seu desenvolvimento, mas da mesma forma não devemos apenas rotular uma criança como criminosa, malvada, violenta e deixar de considerar seu histórico de vida na manifestação de determinados comportamentos. Crianças que agridem podem ser crianças agredidas verbal, fisica ou sexualmente. Podem ser crianças cujas famílias estão desestruturadas, podem ser crianças negligenciadas, podem ser crianças gravemente doentes.
Por isso é importante um trabalho de acompanhamento e orientação não apenas da criança como também - e talvez até principalmente - da família para se detectar a dinâmica familiar, as condições em que a criança vive, se sofre maus tratos, como é conduzida sua educação dentro do seio familiar. Crianças com comportamentos seriamente desajustados frente a sociedade precisam sim ser corrigidas, mas também precisam, na maioria das vezes, de tratamento.

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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Funcionamento cerebral, aprendizagem e comportamento

O sistema nervoso é composto de um intrincado processo de envio de informações, que nada mais são do que impulsos elétricos e atividades químicas. Esses impulsos são enviados para as partes cerebrais que correspondem a cada tarefa ou pensamento que o indivíduo pretende realizar e isso é feito através dos neurônios. Da mesma forma que em nossa casa temos tomadas e fios, que conduzem a energia que vem do poste, do lado de fora da casa, até os aparelhos eletrônicos e fazem com que eles funcionem, guardadas as devidas proporções os neurônios agem como se fossem os fios condutores da energia elétrica dentro do cérebro. Eles levam a informação recebida através do meio externo, até o local exato onde essa informação deverá ser decodificada para que então o “aparelho” específico funcione da forma correta.  Ele recebe essas informações através dos olhos, dos ouvidos, da pele e essa informação é quase que instantaneamente transmitida pelas sinapses cerebrais até a “fonte” geradora do comportamento ou movimento.
Porém, para que possa decodificar essa informação, o cérebro vai utilizar informações que já possui de alguma maneira. Por isso, por exemplo, a criança não consegue aprender a escrever antes que seu cérebro tenha, entre outras coisas, informações suficientes sobre o ambiente que a cerca, pois a partir daí poderá ter subsídios de levar a informação sensorial para a parte motora. Por isso que para adultos é mais fácil aprender a ler e escrever baseando-se em palavras que eles utilizam no dia a dia e com as quais estão acostumados. Assim os caminhos que o cérebro vai utilizar para o aprendizado são, digamos, mais “fáceis”. É o que se chama de associação ou associação de imagens e informações.
É fácil entender esse tipo de situação quando, por exemplo, passamos por uma situação traumática e naquele momento está tocando uma determinada música. Nunca mais vamos conseguir ouvir aquela música sem associa-la à situação ruim. Ou quando comemos uma comida que nos faz passar mal, mesmo que nos seja oferecida a mesma comida de ótima qualidade, nunca mais vamos conseguir comê-la
Para que se dê a aprendizagem, quanto mais executamos uma ação, mais fácil ela se torna. É aquela premissa de que a repetição leva à perfeição, exatamente porque quanto mais a passagem da informação se repete, mais são reforçadas as conexões do neurônio que fazem parte desse caminho. Segundo Sidarta Ribeiro “Dependendo dos tipos de neurotransmissores e receptores envolvidos, tal processo pode determinar tanto a excitação quanto a inibição das células pós-sinápticas.” 
Sendo assim, quanto mais o cérebro repete uma informação recebida, mais rápida essa informação será processada e menos dificuldade encontrará para processá-la. Isso pode ser positivo ou negativo. Digamos que alguém está aprendendo a tocar um instrumento: quanto mais ela repetir a ação de tocar, mais fácil será para o cérebro reconhecer as notas e sua correspondência na pressão dos dedos em locais específicos desse instrumento, levando à perfeição. Mas digamos que uma pessoa tenha pensamentos negativos recorrentes sobre uma determinada situação. Quanto mais ela pensar daquela forma, mais negativos serão os pensamentos (reforçados pelas sinapses) e mais aquela determinada situação lhe parecerá negativa ou impossível de ser resolvida. Essa é a chamada Potencialização de Longo Prazo ou LTP.
Em outra instância, temos a LTD: depressão de longo prazo. Após uma atividade intensa do cérebro, ele perde um pouco sua capacidade de assimilação ou memória. É como se fosse uma fadiga, onde necessita espaço para que possa continuar aprendendo. Nesse sentido, o esquecimento de algumas situações ou mesmo de aprendizagens torna-se necessária. Segundo o site Biblioteca Virtual em Saúde, nos descritores de ciências e saúde a LTD é a “diminuição persistente da eficácia sináptica entre NEURÔNIOS dependente da atividade. Geralmente ocorre após estimulação aferente repetitiva e de baixa frequência, mas pode ser induzida por outros métodos. A depressão de longo prazo parece desempenhar um papel na MEMÓRIA.” Em outras palavras, o cérebro vai abrindo espaço para o que utiliza com mais frequência e vai guardando as memórias que não utiliza com tanta frequência. Porém, a não ser em casos de traumas ou doenças especificas, mesmo essas memórias “guardadas” não são totalmente descartadas. É mais ou menos como se fossem os dados de um HD de computador. Os arquivos que são usados constantemente (LTP) ficam mais fáceis de serem acessados devido ao sistema de indexação, enquanto os arquivos menos usados (LTD) ficam guardados e tem um acesso um pouco mais demorado, pois ficam fora da indexação rápida. 

Os impulsos neuronais passam por diversos neurônios pelo cérebro e não estão concentrados em apenas um ou outro neurônio especificamente. Devido a isso, o cérebro pode “reaprender” tarefas que já sabia executar, mesmo quando sofre grandes lesões. Quanto maior a lesão e quanto mais complexa a tarefa, mais difícil fica de reaprender, mas ainda assim consegue recuperar algum tipo de informação.
Podemos então, dizer que quando somos solicitados a realizar operações matemáticas somente por meio do pensamento (ou “de cabeça” como se diz popularmente), nosso cérebro ativa um caminho onde o processamento sensorial começa processando informações específicas, menos abrangentes, para depois formar uma imagem completa, mais abrangente. Porém, de alguma maneira o cérebro processará essas informações de acordo com as informações que já possui, pois teoricamente todos nós aprendemos muito cedo a realizar operações matemáticas. Porém, o tempo de cada pessoa para a realização dessas operações, partindo-se do princípio de que não haja nenhum problema que impeça a realização da tarefa num nível abstrato, será maior ou menor, pois depende do quanto seu cérebro é treinado para realizar operações matemáticas. Quanto mais treinado for o cérebro, mais conexões favoráveis a essas operações ele terá, e mais rápido será o tempo de resposta para as operações matemáticas. Uma pessoa que não está acostumada a usar seu cérebro nessa área, demorará um tempo maior, o que é normal e esperado.
Da mesma forma podemos dizer que ao sermos solicitados a pensar numa ferramenta, pensamos naquela ferramenta com a qual mais tivemos contato na vida, seja de forma real ou abstrata, mas de alguma maneira essa ferramenta esteve em nossa mente mais vezes do que outra. No caso especifico do martelo, como o próprio texto diz, isso ocorre porque é a ferramenta que estamos acostumados a ver em casa desde crianças, ou até mesmo nos desenhos animados, nos livros escolares, etc. Dessa forma, a memória mais forte que temos de uma ferramenta é o martelo. Talvez para um agricultor, seja uma enxada ou um ancinho, porque seria a informação mais estimulada em sua memória. E pensamos primeiro na forma e depois na cor porque esse é o caminho que informação faz em nosso cérebro.
Dessa maneira, podemos dizer que o aprendizado depende da forma como nosso cérebro é estimulado positivamente sobre determinado assunto mas não apenas isso. A aprendizagem se dá também de acordo com as emoções envolvidas nessa aprendizagem. Ainda voltando ao exemplo da atividade, pode ser que muitos de nós não consigamos resolver operações matemáticas porque as memórias que temos dos tempos escolares, onde os números pareciam irremediavelmente impossíveis de resolver, tenham nos trazido memórias afetivas negativas a respeito e por isso, prejudicado nossa aprendizagem. Mas, por outro lado, sempre temos uma disciplina que gostamos mais ou nos interessamos mais, e provavelmente essa é aquela não apenas que conseguíamos compreender melhor, mas também aquela cujo professor era o mais querido da turma. Portanto, a forma como o cérebro se comporta no processo de aprendizagem e memoria envolve inúmeros processos complexos, muitos já conhecidos e outros que ainda vem sendo profundamente estudados pelos cientistas.


REFERÊNCIAS

RIBEIRO, Sidarta. Artigo: O mosaico das memórias. Scientific American – Mente e Corpo Disponível em http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/o_mosaico_das_memorias.html - acesso em 13/07/2014

Biblioteca Virtual de Saúde – Descritores em Ciência da Saúde. Depressão Sináptica de Longo Prazo. Disponível em http://decs.bvs.br/cgi-bin/wxis1660.exe/decsserver/?IsisScript=../cgi-bin/decsserver/decsserver.xis&task=exact_term&previous_page=homepage&interface_language=p&search_language=p&search_exp=Depress%E3o%20Sin%E1ptica%20de%20Longo%20Prazo – acesso em 13/07/2014

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Desnutrição e sua influência na aprendizagem da criança


A alimentação é muito importante para que a criança se desenvolva positivamente. É por meio dos alimentos que nós, seres humanos, conseguimos os nutrientes necessários para fortalecer, desenvolver ou amadurecer nosso corpo.

A desnutrição não ocorre somente depois do nascimento. Muitas crianças já nascem desnutridas, porque suas mães não foram capazes de alimenta-las intrauterinamente. Essas crianças geralmente nascem com baixo peso (abaixo de 2,5 kg) e ficam mais suscetíveis a sofrerem gravemente com doenças que poderiam ser consideradas apenas passageiras em crianças normais e que podem, inclusive, levar à morte. Por esse motivo a alimentação da gestante é tão importante, sobretudo para o desenvolvimento do sistema nervoso do feto, pois como já vimos, um sistema nervoso bem desenvolvido fará com que a criança tenha menor probabilidade de apresentar transtornos escolares.

Porém podemos também pensar em desnutrição em crianças que aparentemente são saudáveis ou até mesmo estão acima do peso. Isso ocorre porque desnutrição tem como característica básica não apenas o baixo peso mas principalmente a falta de vitaminas, minerais e nutrientes responsáveis pelo bom desenvolvimento e funcionamento do corpo humano. Por isso é tão importante que você pai, mãe, cuidador, preste atenção naquilo que sua criança come. Crianças que comem muitos doces, salgadinhos, guloseimas e deixam de lado as frutas, as verduras, os legumes e a alimentação de verdade, podem estar desnutridas ou subnutridas sem que demonstrem na aparência física.

A desnutrição é uma das grandes responsáveis pela falha no desenvolvimento infantil e consequentemente, da dificuldade escolar, pois além do que já foi dito, não é difícil de pensar que uma criança com fome ou mal alimentada não tem condições de se concentrar nos estudos. E o organismo de uma criança desnutrida não vai responder satisfatoriamente às necessidades da aprendizagem.

Muitas crianças brasileiras ainda encontram na merenda escolar a única refeição do dia, por isso é dada tanta importância à alimentação na escola. Embora muitas vezes encontrem feijão e farinha para comer em casa, falta-lhes os chamados alimentos protetores: vitaminas, proteínas e minerais presentes no leite, nos ovos, carnes, frutas e verduras frescas e a falta dessas substâncias pode causar doenças graves. Crianças subnutridas apresentam dificuldade em realizar atividades, falta de energia, olhos fundos, pele pálida e, muitas vezes, tristeza e apatia.

Diante dessa realidade, como podemos esperar que uma criança consiga frequentar a escola e acompanhar os conteúdos pedagógicos de forma satisfatória?

Por isso as políticas públicas que visam a obrigatoriedade da alimentação do escolar são tão importantes. Mas acima de tudo, cuidados durante a gestação e a correta nutrição do recém nascido são imprescindíveis para a saúde da criança. Crianças maiores devem ser orientadas a comer alimentos saudáveis. Via de regra as crianças rejeitam certos alimentos porque os adultos que a cercam não fazem a oferta correta ou então porque já foram suficientemente viciadas em açucares e industrializados gordurosos para não sentirem mais prazer com o sabor do alimento natural. Portanto, ao alimentar seu filho pense que não é apenas uma questão de encher a barriguinha para matar a fome mas, sobretudo, de estruturar o corpo dele para uma vida inteira de desenvolvimento e aprendizagem.

Só uma criança bem alimentada desde sua geração será capaz de ter um corpo saudável para poder se desenvolver normalmente na escola.